Aditivos rejuvenescedores ajudam a dar nova vida ao asfalto reciclado

Com o avanço do uso de RAP, a química ganha papel estratégico para recuperar propriedades do ligante envelhecido e melhorar o desempenho das novas misturas asfálticas

Por Conexão Construção 23/09/2026 - 16:46 hs

O material retirado das rodovias durante a fresagem não precisa ser descartado. O RAP (Reclaimed Asphalt Pavement), conhecido no Brasil como material fresado, contém agregados e ligante asfáltico que podem voltar à estrada como matéria-prima de uma nova mistura. 

O uso do RAP nas camadas asfálticas brasileiras vem ganhando espaço nos últimos anos, impulsionado pela evolução das normas, pela adesão das concessionárias e pelos contratos de concessão. Além do aspecto ambiental, a reutilização reduz a necessidade de novos agregados e de ligante virgem, além do volume de material destinado ao descarte e dos transportes associados à obtenção de novas matérias-primas. 

Mas existe um desafio: o ligante presente no RAP envelheceu. A oxidação torna o asfalto mais rígido e frágil, reduz sua capacidade de relaxar tensões e aumenta sua suscetibilidade ao trincamento. É justamente nesse ponto que entram os aditivos rejuvenescedores. 

Segundo Leonardo Ochoa, da Kao Chemicals México, o rejuvenescedor não deve ser entendido simplesmente como um produto para “amolecer” o asfalto. Seu objetivo é recuperar propriedades alteradas pelo envelhecimento e restabelecer o equilíbrio entre rigidez, capacidade de relaxamento e resistência ao trincamento. 

Não existe uma fórmula única

A escolha e a dosagem do rejuvenescedor dependem das características do RAP e do estado efetivo do ligante. Antes da aplicação, é necessário analisar o material, realizar ensaios e definir a formulação adequada para a nova mistura. 

Para Agnaldo Agostinho, gerente técnico da Brasquímica Produtos Asfálticos, o processo representa uma nova geração de tecnologias para o reaproveitamento do RAP: é possível recuperar o ligante envelhecido e transformá-lo novamente em um produto capaz de integrar uma nova mistura asfáltica. 

A química aplicada à pavimentação, porém, vai além do rejuvenescimento. Há também aditivos destinados a melhorar a adesividade, modificar o comportamento do ligante em diferentes temperaturas, permitir a produção de misturas em temperaturas mais baixas e aumentar a durabilidade. 

Mais RAP exige mais controle

O aproveitamento do material fresado começa antes mesmo de ele chegar à usina. A forma de retirada, transporte e armazenamento influencia sua qualidade. Depois, o RAP pode precisar ser processado, quebrado e peneirado para obtenção das diferentes faixas granulométricas.

A Norma DNIT 033/2021-ES estabelece procedimentos para o uso e controle do RAP em concreto asfáltico reciclado em usina a quente. 

A avaliação das misturas recicladas também precisa considerar o desempenho de longo prazo. Para Ochoa, a resistência ao trincamento e a durabilidade precisam ganhar mais peso na avaliação das misturas recicladas, além dos parâmetros tradicionalmente utilizados para misturas com materiais virgens. 

Uma tecnologia em evolução no Brasil

Na Europa, a reutilização e reciclagem do asfalto já fazem parte da rotina do setor. Dados recentes da EAPA – European Asphalt Pavement Association mostram que, entre os países que forneceram informações completas, 97% do asfalto recuperado teve algum tipo de reutilização ou reciclagem em 2024. 

No Brasil, o setor ainda está em processo de evolução. Segundo Taís Sachet, engenheira civil, mestre em Infraestrutura e Meio Ambiente e doutora em Infraestrutura de Transportes pela Escola Politécnica da USP, o país está “no meio da curva de aprendizado” em relação ao aproveitamento do material fresado.

Ela aponta a evolução das normas do DNIT, a adesão das concessionárias e os contratos de concessão como fatores que vêm ajudando a acelerar esse processo. 

A discussão sobre RAP, aditivos rejuvenescedores, sustentabilidade, tecnologia e desempenho dos pavimentos estará entre os temas da Paving Conference 2026, que acontece simultaneamente à Paving Expo, de 22 a 24 de setembro, no Distrito Anhembi, em São Paulo.